| 07.12.05 - BOLÍVIA |
Pablo Jofré Leal *
Adital - A menos de duas semanas das eleições presidenciais bolivianas, as pesquisas indicam que o favorito para ganhar o postergado pleito será o líder cocaleiro e presidente do Movimento ao Socialismo, Evo Morales. Se gera assim a possibilidade certa que, pela primeira vez na história latino-americana, um indígena ocupe a primeira magistratura.
Depois de várias semanas de incerteza, inclusive com ameaças de golpe de Estado, postergação das eleições e a renúncia do atual presidente, Eduardo Rodríguez, o decreto presidencial de 1° de novembro passado, tirou os obstáculos que impediam o processo eleitoral, que terá lugar no próximo dia 18 de dezembro. "Percebidos, segundo o jornalista do Pulso Bolívia, Pablo Stefanoni, por uma ampla maioria dos bolivianos, como a única via para resolver, no marco do sistema democrático, o "empate catastrófico" derivado da guerra do gás, de outubro de 2003", com referência ao equilíbrio instável entre os movimentos sociais e as empresas transnacionais de hidrocarbonetos.
O longo braço do Tio Sam
Apesar de uma intensa campanha midiática, política e inclusive de acusações de intervenção estadunidense nos ataques à sua candidatura, o líder do MAS, Evo Morales, se encontra otimista frente às eleições, que podem marcar um acontecimento histórico num país povoado, majoritariamente, por Quechuas, Aymaras e Guaranis. Esse acontecimento é a possível entrada no Palácio Quemado de um "camponês, indígena e cocaleiro", para o qual nenhum analista político dava esperanças de chegar à Presidência. O líder indígena tem suas principais bases em três dos mais importantes departamentos da Bolívia: La Paz, Cochabamba e Oruro, que somam 56% do eleitorado.
Em conversa com este jornalista, Morales disse sentir-se confiante e seguro de seu triunfo "assim indicam as últimas pesquisas e é o que também percebo em cada visita aos povos do altiplano e da serra, de cada um dos nove departamentos da Bolívia. Serei o ganhador, a pesar de que os próprios Estados Unidos intervêm nesta eleição, dando instruções às empresas pesquisadoras para aproximar as diferenças que existe entre o meu partido e o PODEMOS, de Jorge Tuto Quiroga. O Tio Sam quer meter seu bedelho porque tampouco gosta da amizade de Evo com o presidente Chávez (Hugo Chávez, da Venezuela) e, seguramente, terá suas reparações pelo apoio que o presidente Lula da Silva (do Brasil) tem dado à minha possibilidade certa de triunfo"
As palavras de Evo são confirmadas através de canais diplomáticos e políticos consultados, que asseguram que "a Embaixada dos Estados Unidos em La Paz tem se reunido com o candidato presidencial da Unidade Nacional, Samuel Doria Medina, para que abandone a competição e endosse seus votos a Tuto Quiroga, a fim de bloquear a possibilidade certa de triunfo de Morales".
Efetivamente, após estas denúncias, veio o chamado do candidato do PODEMOS para que Doria desistisse, "porque a única coisa que conseguiria é fragmentar o voto. A UN apenas quer retirar alguns quantos parlamentares, para depois eles decidirem" declarou Tuto. O porta-voz da UN, Jaime Navarro, afirmou que "a proposta de Quiroga obedece a uma atitude nervosa porque sabe que vai perder e à sua tendência de queda de sua candidatura, que o faz pleitear este tipo de idéias". A UN divulgou um comunicado em que acusa Quiroga de mentir em dois tema chaves: "ter afirmado que se opôs à privatização da empresa estatal de hidrocarbonetos e que não há julgamentos contra ele".
Para a analista política pacenha Ximena Costa, a pugna entre Quiroga e Doria Medina se entende porque "ambos disputam a mesma base social de apoio, que não são os indígenas da área rural, que apóiam Evo Morales. Os votos que dão a Samuel os tiram de Tuto Quiroga e isso faz acender ainda mais as fogueiras do enfrentamento. O problema é que quando um ganha as eleições, os que perdem são incapazes de contribuir para melhorar a gestão da oposição".
Tudo vale
A menos de duas semanas das eleições, que definirão o quarto presidente boliviano em menos de dois anos, a guerra suja se intensificou. Os dardos têm sido lançados, principalmente pelo PODEMOS, que, mediante uma variada mostra de peças propagandísticas, se encarrega de mostrar Evo Morales como uma opção inviável e até perigosa para o país. "Não podemos darmos ao luxo de perder nossos mercados, milhares de bolivianos perderiam seus trabalhos se Evo chegar a ser presidente, já que seriam cortadas as relações com todos os governos que compram de nós" repete Quiroga como uma ladainha. A última das criações mostra uma mulher indígena, que se queixa de ter sido abandonada por seu esposo. "Evo Morales abandonou seus filhos. Se Evo não é responsável com sua própria família, como poderá ser responsável conosco" interroga a mulher, enquanto o fundo musical fúnebre invade os televisores.
Como estas mensagens não fazem efeito na intenção de voto de Morales, que se situa já em 33%, contra 27% de Quiroga, o candidato do PODEMOS tem chamado reiteradamente para debater na televisão com o líder do MAS, consciente de que a grande debilidade de Morales radica, precisamente, na discussão pública a respeito das políticas que executaria em seu governo. "Morales não é um virtuoso da palavra, e não conta com a preparação acadêmica de Quiroga, que é formado nos Estados Unidos. Evo faz bem em não se expor em áreas onde Quiroga o supera" assinalou à nossa revista um próximo assessor comunicacional do candidato do MAS.
Segundo a legislação eleitoral vigente, se nenhum dos candidatos obter mais de 50% dos votos, será o Congresso que elegerá entre os dois candidatos mais votados, numa sorte de segunda volta, e onde radica o perigo maior para a candidatura do MAS, no sentido de que a direita consiga unir esforços e evitar que Evo assuma a primeira magistratura.
A análise fina depois das eleições de 18 de dezembro nos indica que lá radicará o perigo maior para a estabilidade boliviana, pois militantes e dirigentes do MAS não deixam de repetir que não se deixarão espoliar um triunfo por secretaria e, por outro lado, se superado este trâmite, Evo ocupa a cadeira presidencial do Palácio Quemado, se encontrará com a oposição dos outrora irmãos de luta.
O Mallku Felipe Quispe, que também concorre à Presidência pelo Movimento Indígena Pachakutí, com 2% de apoio, assinalou a este repórter que "nenhum governo que assuma, seja Morales ou outro, terá tranqüilidade enquanto não cumpra com a nacionalização dos hidrocarbonetos e expulse as transnacionais sem indenização". Mesmo argumento repetido pelo secretário executivo da Central Operária Boliviana (COB), Jaime Solares, para quem Morales, como presidente, "só representará a continuidade de uma política neoliberal, que rouba da Bolívia suas riquezas"
Difícil panorama
Tudo indica que o novo presidente boliviano terá, nesta ocasião, um rosto indígena. Nesse marco, os desafios do MAS e de seu líder são claros: ganhar as eleições sem ir para o Congresso e, em segundo lugar, garantir a governabilidade. Ação difícil já que a grande maioria dos parlamentares responderá por partidos de direita e os nove departamentos bolivianos estarão regidos por prefeitos desses partidos, que, pela primeira vez, serão eleitos por voto direto.
As eleições na Bolívia estão em polvorosa. As tentativas de deter a possível chegada de Morales à Presidência alertaram os dirigentes do MAS, que têm falado sobre a possibilidade do uso da força se Evo não entrar no Palácio Quemado "As organizações vivas da sociedade não permitirão que Tuto Quiroga governe nem sequer seis meses. Vem uma mobilização que já não será pacífica contra os neoliberais e contra os partidos tradicionais. Por isto, Evo Morales vai ser presidente por bem ou por mal; eu digo com toda sinceridade, se não nos deixam governar democraticamente, então tem que ser à força", declarou o dirigente camponês e candidato do MAS Román Loayza. "Já temos conversado com alguns militares e policiais, possivelmente sem derramar sangue vamos entrar no Palácio", acrescentou Loayza.
De imediato, Quiroga enviou uma carta ao presidente Eduardo Rodríguez ,queixando-se pelo que ele considera uma ameaça de golpe de Estado no caso de que Morales não obtenha 50% mais um dos votos nas eleições de 18 de dezembro. "Com esta declaração, o alto dirigente do MAS ratifica expressões de Evo Morales no mesmo sentido, quando afirmou que se estava gestando uma 'insurreição armada' para defender o voto". "Compreenderá senhor presidente que estas declarações são ao extremo preocupantes porque constituem um chamado aberto ao protesto e golpe contra a ordem democrática, razão pela qual considero urgente que, em sua condição de Capitão Geral das Forças Armadas e do comando que exerce sobre nossa Polícia Nacional, ordene o imediato início de uma investigação, a fim de identificar os 'militares e policiais' que estariam preparando um golpe de Estado" assinala Quiroga em sua missiva.
O candidato do Podemos enviou também outra carta a Evo Morales, onde assegura que as declarações de Loayza ratificam as próprias idéias de Evo: "as temerárias e anti-democráticas afirmações deste deputado do MAS não fazem senão ratificar as suas, no sentido de convocar uma 'insurreição armada' no caso de não ser favorecido pelo voto", disse Tuto em sua carta. "A única possibilidade que você tem de demonstrar ao povo boliviano que não está em afãs conspirativos é aceitando assinar uma carta-compromisso de respeito à primeira maioria, não entre nós, mas ante o Cardeal Julio Terrazas" agrega Tuto na missiva
Guerra suja, ameaças de golpe, possibilidades de aliança entre a direita para impedir o triunfo de Morales, são algumas das situações que povoam o panorama eleitoral altiplânico, onde também os fantasmas de Gonzalo Sánchez de Losada e de Carlos Mesa Gisbert rondam ainda o Palácio Quemado e podem ser a lembrança permanente para qualquer um que ocupe a cadeira presidencial. Se não se cumprem as demandas de outubro de 2003, que significaram a mobilização de centenas de milhares de camponeses, indígenas, professores, profissionais e estudantes, é possível que o primeiro governo de um indígena na América Latina seja apenas um efêmero sonho.
Pesquisa Equipes Mori. Bolivisión e Unitel
| MAS: | Movimento ao Socialismo. Evo Morales. 33% |
| PODEMOS: | Poder Democrático Social. Jorge Quiroga. 27,5% |
| UN: | Unidade Nacional. Samuel Doria Medina. 12,9% |
| MNR: | Movimento Nacionalista Revolucionário. Michiaki Nagatani. 5,3% |
| MIP | Movimento Indígena Pachakutí. Felipe Quispe. 2% |
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