segunda-feira, junho 12, 2006

A alquimia barata do tucanato

Depois de 12 anos no comando do executivo paraense, o PSDB tem o direito de prometer "um novo Pará" ao Pará que os tucanos deixaram ficar mais pobre? A imagem do novo existe apenas na lépida e fagueira propaganda que a social-democracia utiliza no Estado.

Todos os dias, um milhão de toneladas de rocha são revolvidas na Serra dos Carajás, 500 quilômetros a sudoeste de Belém e 400 metros acima do nível do mar. Depois de ligeiro tratamento, cerca de 400 mil toneladas são depositadas no local, por serem rejeito, e 600 mil toneladas do melhor minério de ferro do planeta são embarcadas em trens até o porto da Ponta da Madeira, na ilha de São Luís do Maranhão, a 870 quilômetros de distância.

Para dar conta da demanda pelo minério de melhor teor do mercado internacional, esse é o mais extenso comboio de trens do mundo. Neste ano ele transportará mais de 90 milhões de toneladas de carga, sobretudo minérios e seus derivados, com valor superior a três bilhões de dólares. Navios de grande tonelagem distribuirão essa carga por muitos países, com destaque para a China e o Japão.

É quase circunstancial a província mineral de Carajás fazer parte do território paraense. Apesar de conter uma das maiores concentrações de minérios da Terra e ser o destino freqüente de gente poderosa dos quatro continentes, muito interessada em vê-la, poucos paraenses conhecem de ver esse conjunto de elevações mineralizadas de rochas velhíssima. São ainda mais raros aqueles que conseguem exercer alguma influência sobre o uso de suas cobiçadas riquezas.

Carajás é o maior centro de produção do Pará atualmente. Está em funcionamento há mais de duas décadas. Quem assistiu a saída do primeiro trem de minérios, em 1984, jamais imaginaria que a ferrovia pudesse alcançar mais de quatro vezes a sua capacidade projetada de transporte e que aquela paisagem original e bela (serras descendo para os cursos d’água por uma encosta densamente coberta de floresta) sofreria impactos tão profundos e rápidos. Intervalos de seis meses, na escala atual de extração de minério, fazem o visitante se espantar com as mudanças causadas pelo trabalho de centenas de pessoas e dezenas de máquinas gigantescas.

Esse ininterrupto trabalho de desmonte, remoção e aterramento, em turnos de 24 horas, podia significar a redenção do Estado. O preço do minério dobrou em duas safras seguidas e a produção vem se multiplicando aceleradamente. A cesta de produtos também se diversificou. Embora o ferro seja o carro-chefe, logo essa posição deverá ser ocupada pelo cobre, presente há dois anos na pauta de exportação de Carajás. O manganês chegou a um nível recorde, o dobro atingido - para escândalo dos nacionalistas, que não aceitavam a remessa do minério bruto para os Estados Unidos - em Serra do Navio, no Amapá.

Mas na realidade parece mesmo que Carajás não é do (nem mesmo no) Pará. O Estado continua no rabo da fila da federação, com índices de desenvolvimento (e outros indicadores sociais) que estão abaixo até da sua grandeza demográfica (sem falar do seu tamanho físico, o segundo maior Estado brasileiro). O modelo de exploração de Carajás é colonial, de transferência de riqueza e pouco efeito multiplicador interno. É verdade. Mas podia não ser exatamente assim. Nem mesmo está escrito que tinha que ser mais ou menos assim.

Na semana retrasada, o presidente da empresa que é dona dos direitos de lavra em Carajás, da ferrovia que transporta os minérios, do porto no qual os embarca e de quase tudo que diz respeito a essas atividades, foi homenageado em Nova York. Roger Agnelli recebeu o título de personalidade do ano, concedido pela Câmara de Comércio Brasileiro-Americana.

A faustosa solenidade foi realizada no suntuoso hotel Waldorf Astoria. A ela compareceram governadores e representantes dos 12 Estados nos quais a Companhia Vale do Rio Doce atua no Brasil. Dentre eles, não se fez presente o governador do Pará, o segundo mais importante no âmbito da companhia, nem ele se dignou mandar qualquer representante ou justificar a descortesia ao convite. Do Estado, apenas dois políticos: o senador Luiz Otávio Campos e o deputado federal Jader Fontenelle Barbalho, ambos do PMDB, da - digamos assim - oposição local.

Quando governador, em dois mandatos, Jader manteve convivência entre o amável e o conflituoso com a empresa, conforme os ambientes e as circunstâncias. A diretoria da CVRD que deu a partida ao Projeto Ferro ficou impressionada com um discurso contundente que ele pronunciou no cinema da vila residencial de Carajás. Os executivos da coligada Albrás, na inauguração da fábrica de alumínio de Barcarena, revelaram a mesma impressão.

Imaginavam que teriam pela frente um governante inteligente, bem informado, combativo, defensor dos interesses estaduais. Iam ter que ceder muitos anéis. Acabaram entregando apenas uns poucos - e nem sempre para melhor desenvolver o Estado (ou contra recibo). Jader Barbalho foi uma surpresa. Muito mais frustração do que surpresa. Ao menos para o Estado. A companhia aprendeu que os interesses de um não combinam com os de outro.

Almir Gabriel assumiu o governo, em 1995, nunca deixando de repetir (até a elefantíase) que o passado acabara. Ele fundaria o "novo Pará", se não fosse - pura e simplesmente - fundar o Pará, ponto. A CVRD roeu ossos duros nas ante-salas do governador e teve que ouvir desaforos, nem todos procedentes, pertinentes ou sensatos. Como acontecera com Jader, ficou novamente impressionada. Mas logo descobriu que os líderes políticos paraenses não primam exatamente pela estatura de estadistas. O doutor Almir, que ameaçara se opor à privatização da CVRD, comandada pelo seu bicudo correligionário Fernando Henrique Cardoso, calou-se obsequiosamente à espera de uma compensação.


A compensação se materializaria com a instalação, no Pará, da fábrica de cobre da Salobo Metais, na época investimento de US$ 2 bilhões, também disputado pelo Maranhão. Feliz da vida, o governador foi a Marabá para o lançamento da pedra fundamental da usina, com seu brilhante nome nela inscrito, pouco antes de a estatal ir a leilão, ser arrematada por preço de compadre (e amigo da onça) e lançar ao vento as palavras da véspera. Da fábrica ficou a placa reluzente e o doutor Almir nem pôde se livrar do líquido de um abio metafórico com que untou como lacre seus lábios antiprivatização. A social-democracia é chuva de verão nos trópicos. Para não usar imagem mais sonora e menos perfurmada.

A Vale continuou a ser, assim, o alvo dos combatentes políticos paraenses, de público, e a destinatária dos seus pedidos e esmolas, nos bastidores. A empresa continuou a molhar a mão dos pretendentes com o troco daquilo que imaginava ser obrigada a entregar, se aquela imagem de Jader - e de todos os seus antecessores e sucessores - não se tivesse mostrado nada mais do que miragem.

Como seu antecessor, o economista Simão Jatene também prometeu terçar armas com o dragão da maldade das desgraças paraenses. Não indo além da primeira estocada, logo se credenciou à sua própria compensação, com destaque para 30 mil casas populares a serem construídas em convênio com essa que se tornou, no período de hegemonia do tucanato paulista (e, agora, sob o operariado honorário paulista, sua contrafação apenas em tese), a maior empresa privada do país, a quarta mineradora do mundo, a maior distribuidora de dividendos do globo terrestre.

A ostensiva ausência do governador do Pará à apoteose de Roger Agnelli em Nova York podia ter valor simbólico positivo, se a atual administração estadual realmente tivesse o que apresentar em oposição (não em tese, mas operativa) ao "modelo" da Vale. Mas o governador, na véspera do ocaso, não tem nem fôlego para reivindicar um segundo mandato. Fenece melancolicamente diante do ímpeto mais vigoroso do doutor Almir.

Diz O Liberal, a folha oficiosa do governo (na sempre infrutífera tentativa de ser mais chapa branca do que o Diário Oficial), que o doutor Almir está preparando seu plano de governo (por enquanto, de campanha eleitoral) sob total sigilo, para que, dele, nada vaze para a massa aparvalhada dos incréus (como diria Nélson Rodrigues, o anti-unanimidade). Essa forma de conceber, anunciar e pôr em prática planos de governo é própria dos iluminados tucanos, herdeiros diretos da sabedoria exclusivista dos deuses. Com a revelação súbita, de impacto, imobilizam a opinião pública e se permitem agir como os donos das tábuas das leis. Era o que faziam os militares com seus "projetos de impacto", como a Transamazônica.

Mas que pode o doutor Almir trazer de novo para o Pará que já não fez nos seus dois mandatos anteriores e o que realizou seu ex-secretário e factótum no quatriênio seguinte? Só se, aos 75 anos, o processo de rejuvenescimento devolvesse ao pré-candidato do PSDB os ideais que o guiavam na vida pública até aquele momento em que, por acaso, circunstância, sorte e talento, ele começou a se tornar poderoso. Mas o Pará retornará a esse devir para se ajustar à visão prospectiva (ou estratégica, como hoje se prefere dizer) do doutor Almir?

Impossível. As centenas de milhões de toneladas de rochas paraenses entranhadas de riquezas que foram mandados para outros países não retornarão nunca mais. Não poderão ser recuperadas para ser transformadas em aço e, do aço, em inúmeros produtos derivados, de valor muito mais alto do que aquele que nos foi pago por nossos minérios. A energia embutida nos milhões de toneladas de alumínio também não poderá ser reprocessada em panelas, laminados e outros artefatos de metal. Essa parte da história do Estado já era. E enquanto se tornava passado, o que fizeram os tucanos além de falar empolado, malhar o óbvio Judas da corrupção no Pará, fazer quinquilharias caríssimas e montar igrejinhas com altares maneiristas tucanos para seus amigos?

O doutor Almir de Oliveira Gabriel, que se prepara para disputar o terceiro mandato de governador, podia pelo menos nos deixar uma compensação mais corpórea do que as que a CVRD prometeu a ele e ao seu sucessor e futuro antecessor: sonhar com uma verdadeira novidade, capaz de durar um pouco mais do que perfume de segunda categoria. Ainda que não haja, dentre todas as alternativas políticas disponíveis no mercado, nenhuma capaz de realizar essa esperança, ao menos seria melhor se desiludir de vez e buscar outro caminho do que ver nova alquimia verbal no lugar do que ela é na verdade: o nada.

Fonte:
Lúcio Flávio Pinto

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