segunda-feira, junho 12, 2006

9° CONGRESSO DA CUT

Corrente majoritária leva presidência; PSOL fica fora

Confirmando as previsões, o candidato da Articulação Sindical Artur Henrique Santos, ligado à tendência petista Articulação, foi eleito o novo presidente da CUT com 69,04% dos votos. Tensões internas levaram à formação de três chapas, e membros da Frente de Esquerda Socialista, composta majoritariamente pelo PSOL, ao não atingirem votação suficiente ficam fora da direção da Central.

SÃO PAULO – Depois de cinco dias de congresso, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) elegeu nesta sexta (9) sua nova diretoria. Confirmando as previsões, assume a presidência da entidade o eletrercitário Artur Henrique Santos, ligado à corrente Articulação Sindical e desde o ano passado apoiado pelo ex-presidente da Central e atual ministro do Trabalho, Luís Marinho.

Majoritária na CUT, a Articulação Sindical – braço sindical da tendência petista Articulação, de Marinho e do presidente Lula – sofreu uma divisão interna neste congresso, que até o penúltimo dia contrapôs duas candidaturas: a de Artur, apoiada, entre outros, pelo poderoso sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e pela Contag, confederação dos trabalhadores rurais, e de João Felício, presidente da entidade desde julho do ano passado e dirigente da categoria dos professores. Decidido pela corrente por voto secreto, o nome do candidato acabou sendo o de Artur, com uma diferença de pouco mais de cem votos.

Outra novidade neste 9o CONCUT foi a apresentação de três chapas no último dia do evento. Se agruparam a Articulação Sindical e a CSD, corrente ligada a tendência petista Democracia Socialista (DS) na chapa 3; a CSC, do PC do B, que apresentou como candidato o atual vice da CUT, Wagner Gomes, compôs com as tendências petistas O Trabalho, Tendência Marxista e Articulação de Esquerda, na chapa 2; e na chapa 1, a Frente de Esquerda Socialista (FES), concorreram o PSOL articulado com o PSB.

O resultado final da eleição deu à Articulação uma vitória folgada de 69,04% (1.639 votos), contra 29,56% da chapa de Wagner Gomes (583 votos) e 6,4% da FES (152 votos). Este resultado acabou excluindo da direção da CUT os membros da chapa do PSOL, já que o estatuto da entidade prevê que, no caso da apresentação de mais de duas chapas, só têm direito à cargos na Executiva as que tiverem no mínimo 10% dos votos.

No cômputo final, a Articulação terá 18 cargos efetivos e cinco na suplência, e a chapa 2 fica com os demais sete cargos da diretoria efetiva e indica dois na suplência.

DESENCONTROS E ACERTOS
O 9O Concut foi considerado pelos dirigentes da Central um dos Congressos mais representativos da história, com cerca de 2,5 mil participantes de todos os estados e categorias, mas também um dos mais disputados politicamente.

Apesar de já no segundo dia do evento a CUT ter decidido formalmente seu apoio à reeleição do presidente Lula, internamente o debate sobre o grau de independência da Central em relação ao governo esquentou o clima. Principalmente, antes da definição da Articulação, o do debate em torno do nome da corrente para a presidência.

Para alguns cutistas, João Felício teria se colocado sempre mais autônomo do que Artur nesta relação, mas o próprio Artur contradiz esta avaliação. “Essa questão da autonomia tem que ser melhor analisada, porque fazer discurso é fácil. Tem que ver na prática. Fomos nós que fizemos as últimas grandes greves, sindicatos ligados a nós, como os eletrecitários e o setor dos bancos públicos. Essa polêmica foi mais uma tentativa de dividir a Articulação Sindical”.

Já segundo Felício, ambos seriam “pessoas que as vezes enfocam questões de forma diferente”. “Podemos ter discursos diferentes, mas não temos divergências quanto a luta mais ampla; somos da mesma corrente. Não acho que existam dois projetos diferentes, mas sim o que você realça mais. Eu sou um radical autonomista, acho que central sindical é central sindical e governo é governo. Eu enfoco isso no meu discurso. Não acho que neste ponto hajam grandes diferenças com Artur, mas eu enfoco muito isso”.

Divergência internas à parte, o fato é que, adotando o discurso da unidade e da defesa da corrente, Felício fez questão de assumir publicamente, em nome da chapa, alguns posicionamentos sobre questões de fundo, como reformas que possam atingir a classe trabalhadora – principalmente uma possível reforma trabalhista - e a política econômica do governo, o que foi visto pelas forças concorrentes como um bom sinal.

“A CUT vai continuar questionando a taxa de juros, o superavit primário, o enorme volume de recursos destinados ao pagamento da dívida externa e que diminuiu a capacidade do governo de investimento nas áreas sociais. E a CUT vai continuar questionando o câmbio flutuante. Da mesma forma que os empresários pressionam o governo federal com suas posições, também faremos isso. Mesmo porque, se não fizermos, vai passar a posição do empresariado”. E acrescentou: “sou do serviço público, tive um posicionamento contrário à reforma da previdência, e se vierem com reformas no mundo do trabalho o ano que vem, eu serei um radical defensor contra a retirada de direitos”.

Sobre o apoio à reeleição de Lula, Artur explica que se trata de uma questão simples: a CUT tem lado. Entre a volta de um governo tucano e sua aposta no neoliberalismo, e um segundo mandato petista, a Central opta por Lula apostando num avanço das políticas sociais. “Vamos apresentar uma plataforma de demandas e vamos lutar pelas sua implementação. Ela não é condicionante do nosso apoio. O que faremos é mobilizar e pressionar”.

RAZOAMENTOS
Uma zebra do 9o Concut, segundo a maioria das tendências políticas da Central, foi a exclusão do PSOL da direção. Apesar das críticas ao “isolamento voluntário”, que levou à composição de uma chapa de antemão fadada à derrota, todas as correntes, exceto a Articulação, tentaram aprovar em plenária que o encontro adotasse a proporcionalidade direta e derrubasse a cláusula de barreira dos 10%, mas a proposta foi voto vencido. Veja, a seguir, alguns posicionamentos sobre esta e outras questões:

Artur Henrique, presidente da CUT, chapa 1 pela Articulação Sindical
Sobre a FES: “A CUT tem defendido uma frente ampla (que represente todas as tendências), mas temos um estatuto democrático. A CUT é uma Central Única mas não posso obrigar agrupamentos políticos a fazer uma chapa única. Não temos culpa [que a FES] tomou uma decisão equivocada”.

João Felício, ex-presidente da CUT, chapa 1 pela Articulação Sindical
Sobre o linha da CUT: “As decisões da CUT não são individuais, é o coletivo que decide. Eu sou uma pessoa profundamente de esquerda, não faço parte do segmento que acha que a luta de classe acabou”.
Sobre a FES: “Acho ruim a exclusão da FES, defendo a unidade da esquerda, e acho que a CUT sempre foi essa unidade. Erraram os que saíram da central sindical para o Conlutas (movimento sindical do PSTU, racha da CUT), hoje estão isolados, mas gostaria de tê-los na CUT. Mas Quando você estabelece um mínimo de 10%, o PSOL poderia ter composto [com outras chapas] sem abdicar do direito de fazer a crítica. Foi uma opção pelo isolamento, eu não consigo entender isso da auto-exclusão”.

Rafael Freire, secretário de Política Social e Econômica da Organização Regional Interamericana de Trabalhadores (ORIT), chapa 1 pela CSD
Sobre o Concut: “O 9o Concut foi especial, foi o primeiro congresso depois de três anos de governo Lula, e tiveram de ser enfrentadas as suas contradições e as posições da CUT em relação a elas. Mas a CUT faz uma opção clara de resistência ao retorno do neoliberalismo, que apontou para o apoio a reeleição de Lula. Acredito que as posições aprovadas posicionam a CUT bem para o próximo período”.
Sobre a FES: “Eu acho [a saída] muito ruim. Nós (CSD) votamos na proporcionalidade direta, mesmo compondo chapa com a Articulação. E nós vamos ficar até o último minuto falando internamente que a FES não deve ser excluído. Já tivemos isso na história da CUT. Se vamos lograr ou não, isso veremos. A nossa opinião é que quem tiver alguma representação no interior da Central tem que estar na direção da CUT. Nós queremos que o PSOL esteja na executiva nacional da CUT”.

Julio Turra, chapa 2 pela corrente O Trabalho,
Sobre o Concut: “O que marcou o Congresso foi a crise que corrói a Articulação Sindical, que contrapôs as candidaturas de Artur e de João Felício e que tinha de fundo político o grau de independência e autonomia que a CUT deve ter em relação ao governo, mesmo aquele que a CUT ajudou a eleger. Mas a CUT não se guia pela sua presidência, é uma relação de força entre os seus diferentes componentes. Nesse sentido, o fato de ter havido três chapas, mesmo que lamentavelmente, apesar de nossos esforços, tenha sido mantida a clausula de barreira de 10% [que excluiu a FES], as três chapas desbloquearam o cenário político da CUT. Porque uma crítica que tem que ser feita que a tendência majoritária: a Articulação Sindical peca por excesso de hegemonismo”.
Sobre a FES: “Espero que não se juntem ao Conlutas”.

Wagner Gomes, candidato à presidência da chapa 2 pelo Pc do B
Sobre a nova direção da CUT: “Se o vencedor cumprir as deliberações do Congresso, a autonomia da CUT estará garantida. Se não cumprir, aí sim a CUT corre um sério risco de entrar em crise, e a coisa pode ficar difícil”.

Índio, membro da FES (chapa 1) pelo PSOL
Sobre a FES: “O ideal é que todas as posições e forças políticas que existem na base, nos sindicatos e na Central estivesse representada na Executiva da CUT.
Nós achamos um atraso a tentativa de exclusão das posições divergentes. Na verdade, o setor majoritário da CUT aposta unicamente na reeleição do Lula. O fato de não haver mais democracia e proporcionalidade pode comprometer CUT”.
Sobre o futuro da FES: “A princípio continuaremos a fazer um trabalho na base e nos sindicatos da CUT, porque a Central é uma entidade dos trabalhadores e não da direção, e muito menos do governo Lula, que impôs a sua visão nesse congresso. Mas não pretendemos sair da CUT, não acreditamos que o Conlutas seja uma alternativa de organização da classe trabalhadora no momento. Não achamos que uma nova Central resolve o problema, a CUT é dos trabalhadores, com eles vamos fazer uma luta de defesa de seus interesses”.

Fonte: Agência Carta Maior

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