segunda-feira, maio 29, 2006

Crise? Que crise?

A grande mídia brasileira não trata com espanto ou alarde, como faz com o MST, o sistemático bloqueio de rodovias federais que vem sendo promovido há quatro semanas por entidades de produtores rurais e prefeituras ligadas ao agronegócio.

Os camponeses do MST em busca de terra e trabalho para sobreviver são “invasores”. Os verdadeiros “agricultores” do país são os grandes fazendeiros, os grandes produtores voltados para a exportação. Talvez por cultivar essa crença, a grande mídia brasileira não trata com espanto ou alarde o sistemático bloqueio de rodovias federais que vem sendo promovido há quatro semanas por entidades de produtores rurais e prefeituras ligadas ao agronegócio em alguns estados do Brasil. O objetivo do protesto é a obtenção de mais uma renegociação da dívida agrícola. Esta semana, as manifestações dos produtores, com direito a tratores incendiados, se intensificou e mobilizou cerca de 70 mil pessoas somente no Paraná, segundo a Polícia Rodoviária paranaense.

Os bloqueios de estrada ocorreram também em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Goiás e Brasília. A intensificação dos protestos se deu por conta da reunião na qual nada menos que oito governadores levaram ao presidente da República a preocupação com a “crise do setor agrícola”. Homem-forte do agronegócio, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, advertiu Lula de que “os protestos poderiam ficar fora de controle”. Outro expoente do setor, o ministro Roberto Rodrigues (Agricultura, Pecuária e Abastecimento) ressaltou a urgência do governo “reconhecer a crise profunda e extensa que afeta o setor rural”. Por trás de toda essa pressão estão os interesses dos grandes produtores de soja.

Vilões do desmatamento e da degradação ambiental na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado, os grandes produtores de soja foram os mais afetados com a retração do setor agrícola nas últimas duas safras. Os problemas climáticos, associados às boas safras conseguidas pelos Estados Unidos e à desvalorização do dólar, segundo a Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária (CNA), fizeram com que o setor tivesse queda de desempenho em produtividade e vendas e amargasse perdas que chegam aos R$ 20 bilhões. O governo já havia liberado na semana passada R$ 1 bilhão, a título excepcional, para “apoiar a comercialização da soja”, mas a quantia não está sendo considerada suficiente pelos produtores, que têm uma pauta de reivindicações muito mais extensa.

Os grandes produtores querem, na verdade, a rolagem de suas dívidas referentes aos gastos para custeio das duas últimas safras e aos empréstimos oficiais para investimentos e aquisições de bens. A estimativa da CNA é que o montante total da dívida que o setor pretende alongar se aproxima dos R$ 13 bilhões. Recentemente os produtores de grãos em geral - e os de soja em particular - já conseguiram do governo a renegociação em R$ 7,7 bilhões de dívidas do setor, mas, a julgar pela insistência nos bloqueios de estrada, querem pressionar o governo a renegociar uma parte maior na dívida atual. Para os R$ 13 bilhões, a CNA sugere pagamento em 25 parcelas anuais, a partir de outubro de 2007, com encargos financeiros prefixados de 3% ao ano, ou seja, 1% a menos que os juros cobrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Estima-se que cerca de 70% dos fazendeiros beneficiados com a rolagem das dívidas sejam produtores de soja. Além disso, o setor é freguês há longo tempo dos programas governamentais de refinanciamento para o setor agrícola, como o Securitização e o Programa Especial de Saneamento de Ativos (Pesa), onde as dívidas são manejadas para lá e para cá e quase nunca são pagas de verdade. Matéria do jornalista André Barrocal aqui na Carta Maior mostra que os grandes produtores sempre recorrem ao governo na hora de “socializar os prejuízos”, mas preferem privatizar os momentos de bonança, como o ocorrido entre 2002 a 2004, quando as exportações do setor cresceram R$ 42 bilhões e o produto interno bruto (PIB) da agropecuária, R$ 55 bilhões.

Planejamento para os períodos de vacas magras, mesmo quando se sabe que a produção de grãos é uma atividade sujeita às imprevisibilidades do clima, não faz parte da cartilha dos grandes produtores de soja do Brasil. Sempre que a coisa aperta, eles podem contar com o governo, afinal de contas, dirão seus defensores, o setor agrícola exportador é responsável por 40% das receitas do país. Prisioneiro dessa lógica, o governo Lula será mais um a, mais uma vez, socorrer os “grandes homens” da soja no país na hora da dificuldade. Fontes do Palácio do Planalto já deixaram vazar que, “diante da crise”, o governo se prepara para anunciar novo saco de bondades para o setor, para alívio do ministro Roberto Rodrigues.

Enquanto isso, milhares de pequenos agricultores reúnem-se em Brasília para o Grito da Terra. A dívida desse setor é pequena se comparada aos tubarões exportadores - algo em torno de R$ 2 bilhões relativos às dívidas contraídas desde 1997 - e espera-se que seja tratada com a mesma benevolência pelo governo. Isso, no entanto, não está garantido, uma vez que a opção do governo Lula pelo agronegócio exportador é clara, em que pese o terrível custo social e ambiental acarretado pelas atividades do setor.

Será que o governo vai mudar de opção num eventual seguindo mandato de Lula? É pouco provável. E o mais triste nisso tudo é que o crescente apoio ao agronegócio (e a tudo que ele representa em termos de exclusão social e agressão ambiental) é uma das medidas que mais distancia Lula da busca de transformações efetivas na estrutura política e econômica do Brasil. É, portanto, um prato cheio (de soja?) para aqueles que acusam o presidente-operário de sempre evitar confrontos com os verdadeiros poderosos do país.

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